A tentação é grande. Em meio à correria do dia a dia, muitos advogados têm recorrido a ferramentas de inteligência artificial generalistas — como o ChatGPT — para acelerar a produção de petições, pareceres e outros documentos jurídicos. Mas essa comodidade pode custar caro. Muito caro.
Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) indeferiu uma petição elaborada por IA, alegando falta de clareza e fundamentação jurídica. O documento, gerado por uma ferramenta genérica, não atendia aos requisitos mínimos exigidos pela Corte. O episódio acendeu um alerta vermelho: estamos diante de um ponto de inflexão na relação entre tecnologia e responsabilidade profissional.
O problema não está na IA em si, mas no uso indiscriminado de sistemas que não foram projetados para lidar com a complexidade do Direito Brasileiro. Ferramentas generalistas são treinadas para responder a uma infinidade de temas — de receitas culinárias a teorias filosóficas — mas não possuem domínio técnico, sensibilidade argumentativa ou compreensão contextual das leis brasileiras.
Elas podem até soar convincentes, mas frequentemente cometem erros sutis, omitem jurisprudência relevante ou confundem institutos jurídicos. E o pior: fazem isso com uma eloquência que mascara a imprecisão.
Imagine entregar uma petição baseada em um argumento inexistente, ou citar um artigo de lei revogado há anos. Agora imagine que esse erro seja detectado por um juiz, ou pior, por seu cliente. O dano à reputação do advogado pode ser irreversível. A confiança, uma vez abalada, não se reconstrói com facilidade.
É preciso entender que o uso de IA no Direito exige critério. Existem ferramentas jurídicas especializadas, treinadas com base em legislação atualizada, jurisprudência nacional e práticas forenses. Elas foram desenvolvidas para apoiar o advogado, não para substituí-lo. Optar por uma IA generalista é como usar um bisturi de plástico em uma cirurgia cardíaca: pode parecer funcional, mas não foi feito para isso — e o risco é mortal.
A responsabilidade técnica continua sendo do profissional. O Código de Ética da OAB não abre margem para terceirização da competência. Se a peça estiver mal fundamentada, não será a IA que responderá por isso. Será você.
Portanto, antes de ceder à praticidade, reflita sobre o perigo. A tecnologia é uma aliada poderosa, mas só quando usada com discernimento. Escolher a ferramenta certa não é apenas uma questão de eficiência — é uma questão de sobrevivência profissional.
No mundo jurídico, onde cada palavra pode definir um destino, confiar cegamente em uma IA genérica é como caminhar sobre gelo fino. E o som das rachaduras já começaram a ecoar.


