Se você é advogado hoje, seu trabalho está sendo rapidamente remodelado.
Pela primeira vez, a matéria-prima central do trabalho jurídico — a linguagem — tornou-se automatizável, em certa medida, pela IA.
A IA generativa não é apenas mais uma ferramenta na mesa do advogado. Ela vai direto ao núcleo do que os profissionais jurídicos fazem todos os dias.
Não entre em pânico. Seu trabalho não será substituído. Continue lendo.
O que a IA pode fazer pelos advogados?
Grande parte do trabalho jurídico pode ser reduzida a este ciclo:
ler → analisar → redigir
- Você lê contratos, e-mails, provas, jurisprudência.
- Você analisa fatos, normas, riscos.
- Você redige petições, pareceres, acordos.
Modelos de linguagem são extremamente bons nesse ciclo. Eles recebem texto, transformam e geram novo texto.
Isso significa que uma grande parte do que chamamos de “trabalho jurídico” pode agora ser parcialmente feito por máquinas:
- leitura
- sumarização
- comparação
- redação
- revisão
O ponto crítico é que isso não é apenas um ganho marginal de produtividade. Toca o coração do fluxo de trabalho diário dos advogados.
Onde exatamente a IA se encaixa no trabalho jurídico?
Tomemos como exemplo uma atividade comum: redigir uma petição.
De fora, parece uma única tarefa. Mas, por dentro, é uma cadeia de microtarefas: preparação, escrita e revisão.
A IA generativa é muito boa em quase todas essas microtarefas.
O que muda não é se o advogado é necessário, mas como ele é necessário.
Menos tempo digitando linha por linha.
Mais tempo em estratégia, calibração de risco e revisão crítica do que a máquina propõe.
O ponto cego: o modelo de negócios da advocacia
Se uma petição de 15 páginas pode ser feita em minutos em vez de horas, o impacto não é apenas operacional.
É econômico.
A maioria dos escritórios ainda funciona com a velha equação:
tempo × taxa horária = valor
Mas se a IA faz em 10 minutos o que antes levava 5 horas faturáveis, o “tempo gasto” deixa de ser um bom proxy para “valor entregue”.
Isso força o setor a novos modelos de precificação.
Desacoplando valor de horas
A mudança mais profunda que a IA traz é o desacoplamento entre valor e horas trabalhadas.
Se continuar cobrando por hora, a eficiência reduz receita.
Se migrar para modelos baseados em resultado, assinatura ou produto, a eficiência aumenta margem e competitividade.
Exemplos:
- Taxas fixas e assinaturas: contratos como serviço, consultoria recorrente, apoio contínuo.
- Honorários de sucesso: pagamento pelo resultado, risco absorvido ou impacto gerado.
- Serviços jurídicos “produtizados”: tarefas padronizadas e automatizáveis, como triagem de contratos ou checagens de compliance.
Competição e escritórios nativos de IA
Nem todos os escritórios vão se mover na mesma velocidade.
Os que adotarem cedo acumularão vantagens: prazos menores, maior consistência, melhor uso de dados.
Isso levará à consolidação em torno dos players mais avançados e ao surgimento de escritórios nativos de IA, desenhados desde o início com fluxos de trabalho centrados em IA.
Mais que uma camada de produtividade
A IA generativa não é apenas um “turbo” para acelerar o motor existente.
Ela permite repensar:
- como dividir trabalho entre humanos e máquinas
- como estruturar equipes
- como medir qualidade
- como precificar e capturar valor
Assim, o setor jurídico caminha para modelos baseados em resultados e riscos, como já ocorreu em software (SaaS), consultoria (taxas fixas) e marketing (modelos de performance).
A IA não substituirá advogados. Mas substituirá muito do que eles fazem hoje — e, mais importante, substituirá a forma como os escritórios ganham dinheiro.


